Programa Su-35 da Etiópia: o Que Está Entregue, o Que Está Contestado
A aquisição pela Etiópia do caça multifunção Sukhoi Su-35 é aqui acompanhada desde as primeiras fugas de informação sobre o contrato até à entrega oficial de outubro de 2026 no aeródromo de Jukovski, passando pelo ainda não confirmado pacote de S-400, com base em declarações da Rosoboronexport e em reportagens independentes feitas na cerimónia. Dados a novembro de 2026.
DEFENCE AFRICA | Acompanhamento de programa | Dados a novembro de 2026
Foto: um caça Sukhoi Su-35 (exemplo ilustrativo, salão aeronáutico MAKS, Rússia). Crédito: Doomych, domínio público, via Wikimedia Commons
O programa Su-35 da Etiópia surgiu na imprensa em duas fases: primeiro como uma fuga de informação, depois como uma cerimónia. Em outubro de 2025, documentos da Rostec divulgados e noticiados pelo meio ucraniano Militarnyi indicavam que a Etiópia tinha assinado um contrato para seis caças Su-35, um acordo que nem Adis Abeba nem Moscovo tinham até então confirmado. Um ano depois, a 28 de outubro de 2026, o primeiro-ministro Abiy Ahmed anunciou nas redes sociais que a Etiópia tinha recebido «os primeiros doze caças Su-35 de geração 4++», e que a Etiópia receberia ainda quatro baterias de defesa aérea de longo alcance S-400. A exportadora estatal russa de armamento Rosoboronexport confirmou no mesmo dia ter entregue um primeiro lote no aeródromo de Jukovski, nos arredores de Moscovo, à margem da Cimeira Rússia-África.
As duas declarações não descrevem a mesma coisa. As fotografias e os vídeos divulgados pelos serviços do primeiro-ministro, analisados pela Janes e pela Aviation Week, mostram apenas dois aparelhos, com as matrículas 2551 e 2552. A agência Interfax, citando o serviço noticioso russo Vesti, também referiu um lote de entrega de dois aviões. Nem a Rosoboronexport nem o Kremlin conciliaram o número «doze» com as duas células visíveis nas imagens, e este acompanhamento trata essa diferença como aquilo que é: números publicados que divergem, não um total estabelecido.
O Su-35 não é a primeira compra de caças pós-soviéticos pela Etiópia, que conduz em paralelo a construção de uma frota de drones militares etíope no quadro da mesma modernização. Para a estrutura de forças em que este programa se insere, ver o perfil militar da Etiópia do DefenceMENA. A Força Aérea etíope opera caças Su-27 e Su-27UB adquiridos à Rússia nos anos 1990, a par de MiG-23 mais antigos, e recebeu em janeiro de 2024 dois Su-30K recondicionados, provenientes da Força Aérea indiana, que tinham permanecido armazenados durante anos. O programa Su-35 prolonga essa relação com o fornecedor russo, em vez de a substituir.

Factos-chave
- Contrato assinado em 2022, segundo os documentos da Rostec divulgados, para seis Su-35 (Militarnyi, revelado em outubro de 2025)
- Confirmação pública e primeira entrega: 28 de outubro de 2026, aeródromo de Jukovski, Cimeira Rússia-África, Moscovo
- Aparelhos mostrados na entrega: dois, com as matrículas 2551 e 2552 (Janes; Aviation Week; declaração da Rosoboronexport)
- Número avançado pelo governo etíope: «os primeiros doze» entregues (Abiy Ahmed, 28 de outubro de 2026) — não conciliado com o que precede
- Encomenda total anunciada: doze aparelhos, segundo o Vedomosti, com entrega inicialmente prevista para 2027
- Anúncio de defesa aérea associado: quatro baterias S-400 «a seguir», sem valor de contrato, data ou tipo de bateria divulgados
Cronologia
| Data | Evento | Estatuto | Fonte, ano |
|---|---|---|---|
| Anos 1990 | A Etiópia adquire a sua frota inicial de Su-27/Su-27UB à Rússia | em serviço | GlobalSecurity; CAST, 2026 |
| Início de 2022 | A Etiópia seria confirmada como cliente do caça-escola ligeiro chinês Hongdu L-15, para substituir a frota de MiG-23 | reportado, em negociação | HNGN, 2022 |
| 2022 (mês não divulgado) | Contrato para seis caças Su-35 assinado com a Rosoboronexport, segundo documentos divulgados | contratado (reportado; não confirmado por nenhum dos dois governos) | Documentos da Rostec divulgados, via Militarnyi, 2025 |
| Janeiro de 2024 | Dois Su-30K recondicionados, ex-Força Aérea indiana, entregues como complemento à frota de Su-27 | entregue | Aviation Week; CAST, 2026 |
| Outubro de 2025 | Documentos da Rostec divulgados revelam o contrato Su-35 até então não confirmado | reportado (fuga de informação) | Militarnyi, 2025 |
| 28 de outubro de 2026 | A Rosoboronexport entrega um primeiro lote (2 aparelhos, matrículas 2551/2552) no aeródromo de Jukovski; o primeiro-ministro etíope anuncia «os primeiros doze» recebidos | entregue (número contestado) | Declaração da Rosoboronexport; Janes; Aviation Week; TWZ, 2026 |
| 28 de outubro de 2026 | Abiy Ahmed declara que a Etiópia «vai receber» quatro baterias de defesa aérea de longo alcance S-400 | reportado, em negociação | Declaração de Abiy Ahmed, via Al Jazeera, Anadolu, 2026 |
Entregue e por entregar
O que está confirmado de forma independente: duas células de Su-35, com as matrículas 2551 e 2552, entregues fisicamente no aeródromo de Jukovski a 28 de outubro de 2026, na presença de oficiais da Força Aérea etíope e fotografadas para divulgação pelos serviços do primeiro-ministro etíope. A declaração da Rosoboronexport à Reuters descreve este primeiro lote como composto por dois aparelhos, o que corresponde às contagens da Janes e da Aviation Week.
O que é contestado: a declaração de Abiy Ahmed refere «os primeiros doze» aparelhos como entregues. O Vedomosti relata, separadamente, que a quantidade total sob contrato é de doze aparelhos, com entrega inicialmente prevista para 2027 — o que implicaria que a entrega de outubro de 2026 ocorreu antes do previsto, pelo menos para os aparelhos efetivamente mostrados. A fuga de informação de 2025, relatada pelo Militarnyi, apontava para um contrato inicial de seis aparelhos. Nenhuma fonte concilia estes três números (dois entregues e fotografados, doze alegadamente entregues, seis ou doze sob contrato), e nem Moscovo nem Adis Abeba divulgaram um número contratual, um calendário de entregas ou a dimensão total da encomenda. Este acompanhamento regista os três números como reportados, não como factos estabelecidos.
Totalmente pendente e não confirmado: as quatro baterias S-400. Nenhum valor de contrato, data de entrega, número de lançadores ou variante de míssil foi divulgado pela Rosoboronexport, pela Rostec ou pelo Kremlin; a única fonte pública continua a ser a própria declaração de Abiy Ahmed.
Participação industrial e compensações
Ao contrário do programa do obus autopropulsado K9A1 EGY do Egito, que prevê produção local sob licença numa fábrica estatal egípcia, o acordo Su-35 da Etiópia não apresenta qualquer sinal de montagem ou fabrico local. Segue o padrão habitual das exportações russas de caças para a África: uma venda de governo para governo, com células construídas integralmente na Rússia.
A compensação, na medida em que existe, está na formação e no apoio, não na produção. O presidente executivo da Rosoboronexport, Alexander Mikheiev, disse à Vesti que pessoal russo irá formar pilotos e técnicos etíopes no Su-35, e que a Etiópia já dispõe de uma base de manutenção para aeronaves da família Su-27, adaptável ao novo modelo. Mikheiev disse ainda que foi «acordado» um programa de apoio que cobre o período de garantia e a vida operacional da aeronave, sem que a Rosoboronexport tenha divulgado os termos ou o valor.
A visita ligada à entrega também permitiu à delegação etíope ver um avião-cisterna Il-78M-90A e, segundo a Aviation Week, o caça de quinta geração Su-57. Nenhum dos dois foi anunciado como uma compra; ambos parecem ter sido apresentados como opções para uma futura fase da relação, e não como aquisições confirmadas.
Alternativas consideradas
A modernização da frota de caças etíope não segue uma única via, o que torna difícil afirmar que o Su-35 tenha sido escolhido em detrimento de um concorrente específico. Existem três outras vias paralelas:
Sukhoi Su-30. A Rússia teria proposto à Etiópia, anos antes, um lote de Su-30 ex-Força Aérea indiana; dois Su-30K recondicionados foram efetivamente entregues em janeiro de 2024, em complemento — e não em substituição — da frota de Su-27. Operadores: Etiópia (entregue, janeiro de 2024).
Hongdu L-15 (China). Reportado em 2022 como a escolha da Etiópia para substituir a sua necessidade de caça-escola ligeiro MiG-23, uma categoria de missão diferente da do Su-35 e, por isso, sem concorrência direta pelo mesmo orçamento. Estatuto: reportado, em negociação; nenhuma entrega confirmada.
Chengdu J-10C (China). Não foi reportado qualquer contrato, oferta ou negociação relativa ao J-10C para a Etiópia. A Military Watch Magazine refere-o como uma opção teoricamente rentável para a renovação mais ampla da frota etíope, dados os laços económicos cada vez mais estreitos entre a China e a Etiópia, mas trata-se de um comentário de analistas, não de uma aquisição reportada, e não lhe é atribuído qualquer estatuto aqui.
No conjunto, o padrão assemelha-se menos a uma competição direta e mais a uma diversificação de fornecedores por categoria de missão — Su-27/Su-30/Su-35 russos para a gama alta, caça-escola chinês para o segmento ligeiro — sem qualquer opção ocidental na mesa, o que é coerente com a postura de aquisição não alinhada da Etiópia e com o seu afastamento dos regimes de controlo de exportação dos Estados Unidos e da Europa.
Por que isso importa para a África
A aquisição do Su-35 pela Etiópia é um dos maiores contratos de caças reportados no continente em 2026, e ilustra um padrão recorrente das aquisições de defesa africanas: governos que anunciam números que os fabricantes ou os observadores independentes não conseguem verificar no terreno. Para as forças aéreas regionais, o programa constitui também um caso de estudo sobre a economia da sustentação logística: reutilizar uma base de manutenção de Su-27 já existente reduz o custo de entrada para um modelo mais capaz, uma via que vários operadores africanos de Su-27/Su-30 poderiam, em princípio, seguir em vez de criarem uma cadeia logística totalmente nova. O anúncio não resolvido sobre o S-400 é relevante para o equilíbrio regional no Corno de África: uma camada de defesa aérea de longo alcance operacional seria uma primeira vez para esta sub-região, mas enquanto a Rosoboronexport ou o Kremlin não confirmarem um contrato, continua a ser uma intenção declarada e não um facto de aquisição. A experiência operacional ainda não faz parte do historial — nenhum dos aparelhos entregues foi reportado em uso operacional —, pelo que as afirmações sobre o que o Su-35 traz à posição da Etiópia face ao Egito ou à Eritreia continuam provisórias até que as entregas, a formação e o estacionamento sejam confirmados de forma independente.
Fontes
- The War Zone: «Ethiopia Gets 12 Russian Su-35 Fighters, Eyes S-400 Air Defenses»
- Janes: «Ethiopia announces Su-35, S-400 acquisitions»
- Aviation Week: «Ethiopia Eyes Air Force Expansion, Modernization, New Acquisitions»
- The Aviationist: «Ethiopia receives first Su-35 fighters»
- AIN Online: «Ethiopia Receives First Russian Su-35 Fighters»
- Militarnyi: «Ethiopia receives first batch of Su-35 fighter jets from Russia»
- Militarnyi: documentos da Rostec divulgados sobre o contrato Su-35 da Etiópia
- Army Recognition: «Russia delivers first Su-35 fighter jets to Ethiopia with S-400 air defense systems to follow»
- HNGN: «Ethiopia-China L-15 Falcon Light Fighter Jet to Replace MiG-23s»
- Military Watch Magazine: opções de modernização da Força Aérea etíope
- CAST: «Ethiopia Eyes Air Force Expansion, Modernization, New Acquisitions»





